Este foi um passeio de BTT diferente. Sozinho, num dia de sol forte que iluminava cada racha e cada erva daninha, pedalei até ao apeadeiro de Santana-Ferreira, na Figueira da Foz. Não procurei apenas o exercício físico, mas o encontro com a história silenciosa do nosso património ferroviário.
Ao chegar, o sentimento imediato foi de uma profunda tristeza. O abandono é total. Onde outrora passavam comboios cheios de gente e de mercadorias, restam apenas carris comidos pela ferrugem e edifícios a desmoronar-se.
Perguntei-me: porquê? Pesquisei e descobri que este apeadeiro fazia parte do Ramal da Figueira da Foz, uma linha vital que ligava Pampilhosa à Figueira. Foi encerrado em Janeiro de 2009, alegadamente por razões de segurança e necessidade de obras. O que seria uma paragem temporária tornou-se, como tantas vezes acontece, definitiva. Desde então, o tempo e o vandalismo têm feito o seu trabalho.
No entanto, ao percorrer o terreno da antiga estação, houve momentos em que o silêncio parecia ganhar voz.
Tirando as fotografias, com os carris em primeiro plano e o edifício ao fundo, quase podia sentir a azáfama de outros tempos. O apito do comboio, o ranger do ferro, o burburinho das pessoas. Fiquei imaginando como teria sido o orgulho daquela gente que ali passava e trabalhava. Era um local de encontros, de partidas e chegadas, uma artéria viva da região.
Hoje, os detalhes sobreviventes são fantasmas desse passado. Os azulejos em xadrez laranja e branco, tão típicos, ainda resistem nas paredes descascadas.
O letreiro das "RETRETES" (Senhoras e Homens) permanece como um lembrete solitário das regras de civilidade de uma época.
A natureza está a ganhar a batalha. A vegetação cresce livremente entre as pedras do balastro e as plataformas de embarque. Santana-Ferreira é agora um monumento à efemeridade das obras humanas. Um local que, graças à luz do sol e ao silêncio, me permitiu viajar no tempo, mesmo que a viagem tenha sido tingida pela melancolia do abandono.
Vi, gostei (do que imaginei), e tu?
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