O Mistério Sob as Ondas de Leça: A História do Veronese que Descobri na Póvoa de Varzim

História marítima da Póvoa de Varzim  Bairro Sul Póvoa de Varzim (o bairro dos pescadores)Estação Salva-Vidas da Póvoa de Varzim (ISN)Lendas e tradições da Póvoa de VarzimSiglas Poveiras (as marcas que os pescadores usavam nas casas e barcos)Naufrágio do SS Veronese em Leça da Palmeira e o salvamento histórico pelo Instituto de Socorros a Náufragos ISN com a fibra da Póvoa de Varzim.
 Quantas vezes já passeou pela marginal de Leça da Palmeira, desfrutou da brisa marítima junto à Capela da Boa Nova e seguiu caminho sem imaginar os segredos que aquele mar esconde? Confesso que fiz isso centenas de vezes. Para mim, aquele horizonte era apenas uma paisagem bonita. Tudo mudou recentemente, quando vim morar para a Póvoa de Varzim. Ao cruzar-me com as homenagens locais às lendas do mar e aos antigos salva-vidas poveiros, a curiosidade despertou-me para uma história impressionante que une estas duas terras: o naufrágio do SS Veronese.

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Fotos da Época 

Corria o dia 16 de janeiro de 1913. Imagine-se uma madrugada gélida de inverno, sob um nevoeiro tão cerrado que mal se conseguia ver um palmo à frente do nariz. Alheio ao perigo, o Veronese, um imponente pacote inglês com mais de 11 mil toneladas, navegava às cegas. Vindo de Liverpool, transportava mais de 200 pessoas — a maioria emigrantes portugueses e espanhóis que rumavam ao Brasil em busca de uma vida melhor.

Às quatro da manhã, um estrondo violento quebrou o silêncio da noite. O gigante de ferro tinha acabado de encalhar nos rochedos da Boa Nova, mesmo em frente ao local onde hoje fica o farol, a uns escassos 250 metros da areia.

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Fotos da Época 

O Pânico e a Corrente Humana em Terra

O cenário que se seguiu foi digno de um filme de terror. O navio começou a partir-se ao meio e as ondas gigantescas galgavam o convés, impedindo o lançamento dos barcos salva-vidas do próprio navio. A salvação teria de vir de terra, e foi aí que começou um dos episódios de heroísmo mais impressionantes da história marítima europeia.

Mal amanheceu, a população local percebeu a tragédia. Sem meios modernos, os socorristas usaram morteiros para disparar cabos em direção ao navio. Montaram o chamado "cabo de vaivém": os passageiros eram amarrados a uma espécie de arnês (a boia de calção) e puxados, um a um, por cima das ondas furiosas.

Conta-se que um lavrador local, ao ver que o cabo batia perigosamente na água devido à distância, correu a abater dois pinheiros da sua propriedade para improvisar um tripé alto na areia. Esse gesto simples elevou as cordas e salvou dezenas de vidas de morrerem afogadas durante a travessia. Na praia, formou-se uma verdadeira corrente humana. Centenas de anónimos acenderam fogueiras gigantescas, trazendo mantas, agasalhos e comida para confortar os náufragos que chegavam em estado de hipotermia.

História marítima da Póvoa de Varzim  Bairro Sul Póvoa de Varzim (o bairro dos pescadores)Estação Salva-Vidas da Póvoa de Varzim (ISN)Lendas e tradições da Póvoa de VarzimSiglas Poveiras (as marcas que os pescadores usavam nas casas e barcos)Naufrágio do SS Veronese em Leça da Palmeira e o salvamento histórico pelo Instituto de Socorros a Náufragos ISN com a fibra da Póvoa de Varzim.

Naufrágio do SS Veronese em Leça da Palmeira e o salvamento histórico pelo Instituto de Socorros a Náufragos ISN com a fibra da Póvoa de Varzim.

Naufrágio do SS Veronese em Leça da Palmeira e o salvamento histórico pelo Instituto de Socorros a Náufragos ISN com a fibra da Póvoa de Varzim.

Naufrágio do SS Veronese em Leça da Palmeira e o salvamento histórico pelo Instituto de Socorros a Náufragos ISN com a fibra da Póvoa de Varzim.
Fotos da Época 

A Fibra Poveira: Homens e Mulheres Gigantes no Resgate

O mar em Leça estava de tal forma enfurecido que as autoridades locais começaram a ficar impotentes. Foi então que se lançou um apelo desesperado à Póvoa de Varzim. A resposta da comunidade poveira foi imediata e mostra bem a têmpera desta gente do mar.

O lendário Patrão Sérgio (António da Silva Sérgio) reuniu num ápice a sua tripulação de pescadores destemidos. Como o mar revolto impossibilitava a viagem de barco pelo oceano da Póvoa até Leça, o imenso e pesado barco salva-vidas poveiro teve de ser colocado numa carruagem de comboio e transportado por via férrea até à estação de Leça da Palmeira.

E aqui entram as mulheres da Póvoa. Naquela época, a alma e a força motriz da comunidade piscatória dependiam muito delas. Foram as mulheres e os homens poveiros que, à força de braços, cordas e de uma resistência sobre-humana, arrastaram o pesado barco salva-vidas desde a estação de comboios, através de caminhos de terra e lama, até à praia da Boa Nova. Um esforço físico brutal, movido apenas pela urgência de salvar desconhecidos.

Uma vez na água, o Patrão Sérgio e a sua tripulação mostraram porque eram considerados os melhores do país. Enfrentando vagas gigantescas que ameaçavam esmagar o salva-vidas contra os penedos onde o Veronese se desfazia, os poveiros conseguiram aproximar-se do navio. Com uma perícia inacreditável, resgataram dezenas de passageiros diretamente das amuradas do paquete. Pela sua coragem heróica, o Patrão Sérgio e os seus homens foram mais tarde condecorados pelo Governo português.

Naufrágio do SS Veronese em Leça da Palmeira e o salvamento histórico pelo Instituto de Socorros a Náufragos ISN com a fibra da Póvoa de Varzim.

Naufrágio do SS Veronese em Leça da Palmeira e o salvamento histórico pelo Instituto de Socorros a Náufragos ISN com a fibra da Póvoa de Varzim.
Fotos da Época 

Olhar para o Mar de Outra Forma

Graças a este esforço conjunto que durou dias, mais de 180 pessoas foram salvas daquela armadilha de metal, embora o mar tenha reclamado cerca de 40 vítimas.

Hoje, quando passo por Leça da Palmeira, já não vejo apenas uma paisagem bonita. Vejo rostos, desespero e uma onda de solidariedade inesquecível que une a história de Matosinhos à da Póvoa de Varzim (onde, curiosamente, o Patrão Sérgio hoje dá nome a uma das ruas mais conhecidas junto à praia).

E a maior curiosidade de todas? O Veronese nunca saiu dali. Se olhar para o mar em frente à Capela da Boa Nova, saiba que a uns meros 10 metros de profundidade repousam as gigantescas caldeiras e placas de ferro daquele monstro mecânico. O navio que outrora espalhou o pânico é hoje um recife artificial silencioso, coberto de vida marinha e visitado por mergulhadores.

Da próxima vez que passear pela marginal de Leça, pare um momento, olhe o horizonte e recorde a noite em que a solidariedade humana venceu a fúria do mar.

"Sabia que um dos primeiros filmes documentais da história do cinema português foi precisamente a filmagem real deste naufrágio em 1913, gravado pela Invicta Film?    https://youtu.be/6eVpSa8k1QQ

Até ao  póximo post, bons cliques.




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